Carta de um castrejo publicada no jornal " Correio de Melgaço"

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Carta de um castrejo publicada no jornal " Correio de Melgaço"

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PT/MMLG/DEM-CC/63

Title type

Atribuído

Descriptive dates

24/05/1917

Dimension and support

1 p.

Scope and content

63.ª - «Sr. Redator: embora um dia de trabalho insano me haja reduzido as forças, não posso deixar de cumprir a palavra dada. Lindoso é lindo; lindo como as “limienses” de quem o Lima lhe traz saudades, lindo com as cachoeiras que o Lima lhe apresenta, ao despedir-se manso, lindo com as coutadas de tojais de ouro, lindo com os giestais mesclados de amarelo e branco. Lindoso é lindo. Mas aqui enxameiam homens de trabalho, na sua maioria analfabetos. Estes homens cansam-se, exterminam-se, para bem dos povos que o seu trabalho vai melhorar e, logo, para bem do Estado. Não seria de alto valor dar-lhes uma escola noturna, para que eles, com ganharem o pão das famílias, se preparassem para mais consciente luta pela vida? Aqui anda muito menino na idade escolar e muito adulto sem conhecer o ABC! Que satisfação íntima a das mães que recebessem dos filhos e dos esposos – uma carta escrita pelo próprio pulso. E que de manifestações de alma se não revelariam naquelas cartas, manifestações que se não podem confiar às mais íntimas amizades. Lindoso é lindo, ainda assim. Depois de saborearmos a merenda, minha mulher deu-me um “feixinho” de notícias, por sinal bem dolorosas, algumas: acha-se gravemente enfermo o reverendo João Domingues, reitor de Castro. // Ainda não foi instalada a escola móvel, mista, que já pensávamos a funcionar. // Amedronta a quem quer ser cumpridor das leis o arrolamento do gado caprino e ovino; e amedronta porque nós podemos possuir hoje 50 ou 100 reses e termos amanhã 40 ou 95... Os rebanhos partem quotidianamente para os montados, ao alvorecer, e voltam à noite. Que de peripécias se dão! Aqui uma ravina funda, onde quedou um cabrito; acolá o lobo, que dizima; além as reses desgarradas que - às vezes -vêm oito ou mais dias depois juntar-se ao rebanho… Como, pois, com uma fiscalização rigorosa, furtar-nos aos rigores da lei? Se, conquanto saibamos o que temos agora, já à noite o não podemos determinar, o que é frequente. Não exigirão, decerto, que nós andemos de Castro para a Vila de Melgaço a dar altas e baixas – o que seria tão inexequível como duro. Nada mais disse minha mulher (…) e vou encostar-me um pouco para, de manhã, ir começar a faina diária. Saudades. Lindoso, 24/5/1917.»

Language of the material

Por (português)