Carta de um castrejo publicada no jornal " Correio de Melgaço"

Available actions

Reader available actions

 

Carta de um castrejo publicada no jornal " Correio de Melgaço"

Description details

Record not reviewed.

Description level

Simple document   Simple document

Reference code

PT/MMLG/DEM-CC/40

Title type

Atribuído

Descriptive dates

24/11/1916

Dimension and support

1 p.

Scope and content

40.ª - «Sr. Redator: a neve que nos visitou pela 1.ª vez nesta quadra nem por um pouco fez arrefecer os ímpetos da nossa alma não vingadora (pois que a vingança só cabe em almas vis) – mas tenaz, persistente, reivindicadora, enfim. Nem nos ofusca a vista a brancura imaculada, nem nos amedrontam as ameaças de trovoada próxima que, com o arrasar-nos os casais, poderia até alagar-nos as medas de feno e palha – que nem poderíamos facultar a um esquadrão, na passagem por aqui e, muito menos, à galopinagem independente, que tentou assaltar-nos, como furioso vendaval. Não. O nosso comendador – pastor atento desta rês feliz – já o constatou no último número do “Correio”. Precisamos, porém, frisar que o espírito castrejo não se verga a imposições – venham elas de onde vierem, partam de onde partirem. A consciência segreda-lhe à alma; e esta, quando pensa (pois não há coletividade onde não haja uma imperfeição) não resiste. Põem em atividade os seus meios de combate, assenta baterias, escava trincheiras, prepara “aterrissages” [aterragens] para as visitas pelo ar, monta hospitais de campanha, edifica já templos na alma aos vencedores. Destes templos não há que falar, pois de há muito estão edificados a pedra e cal, com cimento de 1.ª qualidade. São indestrutíveis. Agora, logo, amanhã, muito tarde, são redutos invencíveis, são mais do que “Verdum”, porque o que existe nas almas é sempre indestrutível, só a morte, pelo aniquilamento físico, o pode destruir. Certos do que afirmamos e de que nenhum castrejo jamais olvidará os seus foros de honra e dignidade, ousamos impor aos contratadores de votos – e depois das eleições, que aqui não há dinheiro com o qual se paguem consciências, e o vindo di lá é mais do que lama para nós; é mais do que o aposento do sapo útil mas imundo e da salamandra nojenta e horripilante. Fora! Lobos vorazes, inconscientes, compradores de consciências puras, de cordeiros mansos. // Uma “oveira” contou-nos que, na penúltima quinta-feira, lhe apreenderam não sei que dúzias de ovos, em trânsito. Claro que a mulherzinha não nos disse que iam para Espanha; e nós, como remediamos com os da nossa capoeira, tivemos pena da mulher. // No mesmo dia foram apreendidas umas vacas – dizem-nos que a caminho da casa de seu dono. Se assim, carga na GF que abusa de nós; se não, se iam a caminho da fronteira, bem apanhadas; e não há que brincar com o fogo. // Continua em foco o “professor” interino. Dizem-nos que a escola é frequentada. Não vamos lá, que mal nos podemos bulir da cama para a lareira. Mas… ó meu Deus! Quem entrasse lá dentro, quem visse o professor e avaliasse das suas aptidões pedagógicas, quem visse o antro-escola que a Câmara nos dá, com o preceptor – sem exame de 1.º grau, conquanto haja sido mesário de confrarias, confundia-se, benzia-se, se fosse cristão, e arrependia-se de ter ido ver aquilo. Povo castrejo: agradece à Câmara a pocilga que te dá para educação dos filhos e… o sem 1.º ano de curso primário que ali está. Quando vier o inspetor preparai-lhe um arco – ali nas Lages. CL, 24/11/1916.»

Language of the material

Por (português)