Carta de um castrejo publicada no jornal " Correio de Melgaço"

Available actions

Reader available actions

 

Carta de um castrejo publicada no jornal " Correio de Melgaço"

Description details

Record not reviewed.

Description level

Simple document   Simple document

Reference code

PT/MMLG/DEM-CC/38

Title type

Atribuído

Descriptive dates

06/11/1916

Dimension and support

1 p.

Scope and content

38.ª - «Sr. Redator: quando o vento, com a impetuosidade do furacão, fazia abalar os esqueletos de madeira das nossas choupanas, cobertas de colmo; quando o ronco pavoroso do trovão, com um sobressaltar, nos punha em risco as caras vidas; quando a chuva e o granizo, num “tap-tap” curioso e à maneira de triste melopeia, nos ameaça os fatos de catrapeanha, e a pele, causticada pelos trabalhos e as asperezas do nosso clima; quando um “pelicas” ribeirinho (sem ofensa para os felizes habitantes das proximidades do risonho Minho) talvez nem deitem o nariz fora da friesta, os nossos queridos conterrâneos faziam o taleigo para a “caminhada” de 5 de Novembro. Não se escudando no anacrónico carneiro com batatas, ordenaram às esposas o almoço confortativo e ampliado e… que o belo chouriço e o naco de presunto – bem superior ao de Lamego – lhes acompanhasse o pão centeio de mistura, no alforge. Fumavam os casais! Eis que, quando tudo pronto para a saída, “general” à frente, montado no seu soberbo ginete, cai, como um raio, a nova de que foram adiadas as eleições camarárias e que não podíamos ir a caminho das nossas reivindicações, e que não podíamos, com o nosso concurso homérico, ir escorraçar das cadeiras do senado concelhio aqueles que nada nos hão feito em seis anos de consulado, aqueles que, por farsante ironia e revoltante civismo nos atiravam às faces o escândalo imprevisto, inaudito, e até asqueroso e baixo, de um “educador” para os nossos filhos – sem exame de 1.º grau! Conhecemos e medimos a força do ataque, como estamos cônscios dos meios de defesa. Descansem, pois, os edis melgacenses que, se autoridades superiores não influírem na aniquilação do aborto que para cá nos mandaram, nós saberemos fazer justiça. E os amigos castrejos não foram demonstrar o seu descontentamento e aversão, e (…) não foram à urna, irmanados como um só, para expulsarem, com o demais povo consciente, os vendilhões de instrução no concelho, não porque a isso se opusesse a inclemência dos elementos, que estão habituados a afrontar com sangue frio, mas porque a lei – que sempre respeitaram e respeitam – lhes disse: não vão. E… não foram. Assistimos depois aos diversos “menus”, em que predominou a melhor ordem, já pela ausência do carneiro sem batatas – sempre indigesto – já pela carência do belo verdasco, para regar o chouriço e o presunto. // Chove e venta desapiedadamente. Consta-nos que o amigo Frouxeira, aliás, descendente dum saudoso sacerdote do mesmo apelido, teve uma síncope perigosa ao receber a notícia, pois com três votos, a contar o dele, projetara ganhar as eleições! É por isso, ovelha tresmalhada, que os teus ídolos te negam a instrução dos filhos e netos. Querem-te ignorante e contam com eles como tais… “um castrejo”. CL, 6/11/1916.»

Language of the material

Por (português)